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Escrito por Hiro Miyakawa. Texto original: Aqui.

VOU LHE CONTAR uma história e você vai gostar. Foi o que aconteceu no ultimo fim de semana, 13 a 15 de março, durante o Startup Weekend Edu Youth Recife (SWEduYouthRecife) na ABA Aflitos. Foi a primeira edição fora dos EUA, sendo a terceira no mundo, onde jovens de 11 a 13 anos de idade solucionam problemas educacionais do seu cotidiano, construindo uma Startup.

Educação empreendedora serve para crianças e jovens?

E se… a gente juntar um monte de jovens e crianças e passar por essa experiência empreendedora, de conscientizar desde cedo que eles mesmos conseguem criar coisas fantásticas? A gente estará dando um empurrão para criar a próxima geração de empreendedores, desinibidos, prontos para transformar o mundo como eles querem. Hmm, vale o desafio.

SWEDU Youth 1

Muitos pais acharam bacana a ideia  —  a gente teve que aumentar as vagas  —  mas senti que ainda pensavam que era uma coisa simples como palestra, um workshop. Os mais entendidos do cenário empreendedor comentavam: “Mas, não são muito novos?” Na hora, sinceramente, também achava. Nem mesmo a gente da organização sabia como tudo isso ia desenrolar. Era tudo novo, inclusive para a gente.

Sexta-feira às 17h. Os participantes começaram a chegar. Jovens de 11 a 13 anos de idade (alguns até mais novos) surgem a recepção acompanhados dos responsáveis. Cada um com posturas diferentes: soltos, brincalhões. Alguns até mais desinibidos que muitos adultos que costumo ver nos SWs. Impressionante.

Em poucas dezenas de minutos o auditório ficou cheio. Algumas crianças sentadas, outras brincando, outras conversando. No fundo do auditório, pais e convidados imaginando o que daquilo tudo iria nascer. Daí chega a hora. Nosso facilitador Gerson, que voltou no mesmo dia dos EUA de um treinamento do SW Youth, começa a falar no microfone. Começam as dinâmicas, interação, estão à vontade. Primeiro contato com a palavra “pitch”, mas logo em seguida já se acostumam e treinam. E durante todo esse momento não parava de pensar: Será que eles estão acompanhando, será que tem noção do que tá acontecendo? Será que estão entendendo que é para falar dos problemas educacionais? É o mal dos adultos, se preocupam de mais.

Essa minha angustia voou de vez quando o jovem Davi de 11 anos sobe ao palco e faz o pitch: “O meu problema é que a escola é sem graça. Ninguém quer ir a escola” e conta a sua ideia para professores e alunos engajarem e compartilharem ideias de gincanas e brincadeiras para as aulas se tornarem mais divertidas. Toda plateia riu, surpresa, o clima de preocupação sumiu. Só bastava deixar que eles mesmos tomassem o controle do evento.

SWEDU Youth 2

Na vez de Mayana, de 9 anos de idade, soltou: “Se eu usar o celular a professora acha que estou brincando. Mas talvez eu só queira contribuir para a sala de aula. A gente tá no século XXI, não no I ou II.”

Várias outras crianças impressionaram. Depois formaram equipes em 15 minutos e o dia foi encerrado.

O mesmo pai que falei no início do evento veio conversar: “Fantástico, parabéns mesmo”. Nós adultos que estávamos equivocados. Os jovens sabem identificar o que tá de errado, eles mesmos sabem se agrupar e seguir em frente. São auto-organizados, com sede de desafio.

Se quiser mais, nosso mentor e especialista em marketing Felipe Pereira fez um resumo bacana da sexta-feira no seu site Digaí.

SWEDu Youth 3

Chega o sábado. Mentores, especialistas de diversas áreas que acreditaram e se dispuseram voluntariamente no SWEduYouthRecife, começam a chegar mais cedo para o alinhamento inicial. O papel deles é de mentorar e orientar — mas nunca liderar. Os jovens que tem que se virar, esse é o lema do SW. Os mentores só vão aconselhar e acompanhar durante todo o percurso, mas nunca trabalhar por eles ou dar ordens. Perguntas básicas rolaram como “até onde posso interferir?”, “Se eu ter certeza que o modelo de negócios tá mal, o que devo fazer?”. Simples, deixem eles descobrirem por si só. Só apontar o caminho e fazer perguntas certas. O alinhamento foi rápido, talvez por ser uma experiência nova, sabiam que só fazendo que a iriam descobrir. Para a gente também a regra era a mesma: mão na massa, e menos conversa.

Os jovens começaram a desenvolver as suas startups. Passaram pelo processo de descobrimento do usuário, mapa de empatia, ligaram e falaram pelas redes sociais com amigos para pesquisa durante a manhã. Criaram aplicativos simples desenhados no papel e digitalizados pelo aplicativo POP no iPad. Curiosos, se descobrindo e enxergando novas possibilidades. Errando, aprendendo, e indo mais pra frente. Talvez seja apenas mais uma brincadeira, mas não podia deixar de perceber o brilho nos olhos dessa garotada.

Estava no meu PC marcando uma troca de mensagens com Startup Weekend Hong Kong University (SWHKU) para instigar os participantes a se sentirem maiores. Alguns jovens começam a chegar ao meu redor e puxar o papo. Comentam que estão se divertindo muito, estão achando super legal criar coisas. Conversa sobre o nada, mas sei que adultos não viriam conversar sobre o “nada”. A leveza e o desprendimento deles são incríveis. Daí chega um amigo da universidade na roda, e no mesmo instante os jovens perguntam: “Posso fazer uma pesquisa?”. Já estão afiados.

Na tarde, cada um assumiu o seu papel na equipe: desenvolvedor, designer ou negócios, e se dividiram para workshops. Pela primeira vez, criando aplicativos simples, logomarcas, aprendendo como funciona a validação de um negócios pelo canvas. Muitas regras? Talvez muito menos que os jogos que jogam no seu smartphone. Assim que criava algo, se comunicava com outros colegas pelo whatsapp para obter opinião.

Anunciamos que encerraríamos às 17:30, conforme o cronograma. Mas se os pais deixassem, poderiam ficar até às 18:00. Assim que o aviso foi dado, eles já puxaram o celular e ligaram pedindo autorização. Engajamento que surpreende até os adultos. Já eram empreendedores, já se empoderava daquilo que criava.

Antes de ir embora Samuel, de 13 anos, chega ao meu lado e diz: “Não tinha ideia como empreendedorismo era legal” e me explica que ele usa as mãos pra falar para as pessoas não se entediarem. Uma oratória impressionante que senti até inveja.

O dia foi uma bagunça e recompensador. Nada foi previsível, só seguimos os passos. Nem os mentores e organizadores sabiam o que ou como eles deveriam fazer, eles mesmo decidiam. Foi um Caos Fértil, e de lá nasceram muitas coisas.

Domingo começa. Tem que terminar o MVP (produto minimamente viável) e preparar a apresentação pros juízes. Começo a notar algumas telas com as logos criadas. Problema ao passar o aplicativo pro celular. Problema na conexão da internet. Do outro lado alguns grupos se desesperando ao ver como os outros estavam na frente. Mas nada os impediam de tocar o projeto. Muitos já pegaram por osmose o macete empreendedor: a se virar.

É algo que não se ensina, só deixa que aprenda. É que nem andar de bicicleta, só aprende fazendo.

A emoção é grande quando presencio a Marina, rodando pela primeira vez no tablet o aplicativo feito no fim de semana. Tenho certeza que foi uma experiência marcante para ela.

No almoço conversei com um dos mentores Pedro Dantas, professor de história e presidente da plataforma SomosProfessores, e conta: “Falou em educação com participação dos jovens, não tem como ficar de fora. É um desafio guiar essas crianças, mas é fantástico.”

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2 horas para apresentações finais, vejo já rodando alguns aplicativos, apresentações prontas. Algumas jovens começam a brincar. Correr, brincar de bola, nunca deixam de ser crianças.

Últimos ajustes para as apresentações finais. Alguns juízes começam a chegar. Alguns jovens nervosos, outros não, perguntam até quais são as premiações.

O trabalho de um fim de semana está lá, pronto para ser mostrado para os pais, convidados e juízes — educadores, empreendedores, políticos, empresários, investidores.

Cada apresentação com 4 minutos + 2 de perguntas dos juízes. A maioria apresentaram em grupo, um dos diferenciais das versões adultas. Apresentaram quem são eles, as vezes até brincando e envergonhados. Falaram dos problemas, das soluções, como pretendem escalar, custos e monetização (única parte café com leite) e o produto (aplicativo) funcionando. Já vi vários SW e muitos nem conseguiram chegar até ai. Algumas equipes estavam tão boas que poderiam estar num SW normal competindo com adultos.

O evento foi um sucesso. Aplausos, assobios, a plateia ficou maravilhada pelo resultado de apenas um fim de semana. Os jovens, agora empreendedores, acumulavam confiança e segurança pelo resultado que mostraram. 4 equipes foram premiadas, mas isso é o de menos. A criação da startup é apenas uma consequência de toda a mudança de comportamento e visão que eles conseguiram.

Eles agora sabem a capacidade que tem para criar coisas do nada. E não depende da permissão ou aprovação de ninguém. Só precisam de esforço, trabalho em equipe, e mão na massa. A mentalidade empreendedora despertada tem um grande impacto na vida — que muitos adultos ainda sonham em ter: independência, trabalho em equipe, liderança, foco no resultado, auto-confiança, e o mais importante: brilho nos olhos.

O evento foi um sucesso. Aplausos, assobios, a plateia ficou maravilhada pelo resultado de apenas um fim de semana. Os jovens, agora empreendedores, acumulavam confiança e segurança pelo resultado que mostraram. 4 equipes foram premiadas, mas isso é o de menos. A criação da startup é apenas uma consequência de toda a mudança de comportamento e visão que eles conseguiram.

Eles agora sabem a capacidade que tem para criar coisas do nada. E não depende da permissão ou aprovação de ninguém. Só precisam de esforço, trabalho em equipe, e mão na massa. A mentalidade empreendedora despertada tem um grande impacto na vida — que muitos adultos ainda sonham em ter: independência, trabalho em equipe, liderança, foco no resultado, auto-confiança, e o mais importante: brilho nos olhos.

Fico animado só de imaginar o que eles, agora, vão aprontar daqui pra frente. Criar aplicativos? Jogos? Empresas? ONGs? Virar astronauta? Seja qual for o caminho que eles forem trilhar, já sabem que só dependem deles mesmo para isso. A próxima geração de empreendedores e resolvedores de problemas já começa a surgir.

O que acha de dar um passo atrás de deixar que o seu filho aprenda a se virar e se desenvolva? Eles são livres, criativos, só precisamos dar o ambiente para isso. A final de contas, como Mayana disse, estamos no século XXI, e não no I ou II.

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PS: Sabe o que me deixou feliz? Ouvir os comentários deles depois do evento:

“Mesmo que não fique nos primeiros colocados, vamos continuar o projeto”.

“Já mandaram mensagem agora de manha dizendo que aula ta chata, que tão em prova hoje e que o fim de semana foi muito melhor hehe”

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Resumindo:

  • Não subestime os jovens. Eles são auto-organizados, sabem o que querem, aprendem muito rápido e com sede de desafios. Eles são soltos, criativos e não estão presos a convenções chatas dos adultos. Deixem eles viverem. (e você vai se surpreender!)
  • Abra mão do controle, deixe que os jovens assumam. É um caos fértil.
  • Professores são dispensáveis? De jeito nenhum. São pessoas chaves e de extrema importância na educação empreendedora. Mas da maneira tradicional, onde o ensino é unilateral, só mata a criatividade e vontade das crianças.
  • O papel dos adultos: Dar autonomia, preparar o ambiente, provocar reflexão e acompanhar. Isso não quer dizer que seja menos presente (vai dar mais trabalho, os mentores que o digam).
  • Deixem que eles mesmo se virem. só aponte o caminho, dê as ferramentas, e muito amor e paciência. Eles são os protagonistas.
  • Nunca dê ordens, pergunte. Se algo estiver errado, oriente para que eles mesmo descubram.
  • Errar é necessário. Não ensine a ter medo de errar, e sim eduque para sugar o máximo de aprendizado e acertar na próxima.
  • Quer saber mais sobre o Startup Weekend Edu Youth Recife, Clica aquiaqui. Se quiser saber como organizar um ou bater um papo, me encontra no hiroxmiyakawa@gmail.com

Agradecimento enorme a Guilherme Carvalho e Renato Bibiano por organizar juntos esse evento fantástico. Ao facilitador Gerson Ribeiro por puxar o evento e criar um clima agradável entre os participantes. Aos mentores Alfredo Falcão, Beatrice Melo, Camila Achutti, Daniella Marcusso, Felipe Pereira, Maria da Conceição, Marina Mota, Mayara Pimentel, Pedro Dantas e Raoni Valadares por terem acreditado no evento e ter um papel fundamental com os jovens. Aos voluntários Amarildo Tavares, Nivaldo Gomes e Takahito Miyakawa por resolverem broncas no evento para que fluísse tranquilamente. À Niedja Barbosa por co-mentorar as equipes. Ao Eduardo Rocha, pelo apoio no evento e sábios conselhos. Aos juízes Eduardo Carvalho, Igor Piquet, Rogério Morais, Rosane Schereschewsky e Sérgio Cavalcante pela dedicação e atenção aos jovens empreendedores. Aos patrocinadores ABA, Editora SBS e National Geografic / Cengage Learning por terem uma visão diferente e carinhosa sobre a educação empreendedora dos jovens. Ao André Hotta do UP Brasil e John Baldo da UP Global pela orientação e conselho para viabilizar esse evento. Por ultimo mas não menos importante, aos jovens empreendedores que passaram o fim de semana empreendendo, e aos seus pais e responsáveis que acreditaram no evento ao propor um futuro melhor para as suas crianças.

Andre Hotta