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Autor convidado: Yuri Gitahy, fundador da Aceleradora

O Brasil tem hoje alguns hubs de startups em formação, como Belo Horizonte, Campinas, Florianópolis e Recife, mas nenhuma região pode ainda ser apontada como o centro brasileiro de empreendedorismo digital. Isso é decorrente da densidade populacional e econômica do país, facilitando a dispersão dos empreendedores para explorar oportunidades regionais (e na hora certa, criar um escritório em São Paulo para também estar presente no centro econômico da nação). Enquanto essa dispersão dificulta a formação de um grande hub como o Vale do Silício, ela faz com que cada vez mais cidades pequenas passem por um avanço consistente de suas startups e empreendedores digitais.

Reconheceu o lugar? A maioria das cidades pequenas tem uma cara assim, e já tem startups locais!

Uma das formas mais simples de se começar um ambiente propício à criação de startups é a realização de meetups frequentes. Meetup é um encontro informal em que as pessoas conversam de pé, facilitando a circulação e o networking. A ideia vem justamente do Vale do Silício, em que eventos como esse são tão comuns quanto um happy-hour após o trabalho. Mas como um encontro tão informal pode ser útil para o empreendedorismo brasileiro?

1) Um dos melhores jeitos de se encontrar sócios e time para sua startup é em uma situação informal como essa. O mesmo vale para técnicos procurando startups interessantes. Dividir um momento de descontração, se conhecer melhor e aprender mais sobre cada pessoa e seus interesses faz com que você conheça seus possíveis sócios melhor e mais cedo.

2) Ao longo de 2009, ajudei a promover meetups em muitas cidades fora do eixo Rio-São Paulo. Sempre que eu chegava a uma nova cidade, os empreendedores locais diziam: “Não vamos ter mais de 30 pessoas aqui hoje.” Quando 150 ou mais apareciam no encontro, percebia-se que existiam bem mais pessoas interessadas do que se imaginava. Isso desperta um sentimento de reconhecimento e incentivo, muito importante para o fortalecimento de cada região. Mesmo que sua cidade tenha somente 20 ou 30 no primeiro encontro, isso já é um começo.

3) Investidores locais também vão aos meetups. Só que nesse ambiente, não existe a pressão da avaliação ou de ser ignorado por alguém: o investidor está ali para conhecer empreendedores, o empreendedor está ali para conhecer investidores e outros empreendedores. Sem regras. Sem expectativas. É muito mais fácil abrir um canal de comunicação dessa forma, e de preferência sem uma competição de pitches – a ideia é deixar a interação fluir naturalmente.

4) Sempre que levamos mentores locais da Aceleradora aos meetups, os empreendedores tinham feedbacks sinceros sobre seus projetos (mesmo que esperassem tapinhas nas costas e parabéns). Essa prática de feedback honesto é emprestada da cultura do Vale do Silício, e faz com que o mindset melhore consistentemente após o meetup em uma cidade.

5) Participando de um meetup, as incubadoras passam se envolver mais, o SEBRAE local inicia um contato mais próximo com os empreendedores, e diversos encontros e movimentos se iniciam em prol desse ambiente. E a propósito, sempre desconfie de gente que faz do meetup um negócio…

Como começar?

Diego Reeberg, um dos fundadores do Catarse, em um meetup dentro da Campus Party em 2011. À esquerda, Flavio Pripas e Renato Steinberg, fundadores da Fashion.me

Se você quer ser o catalisador desse movimento na sua cidade, você deve primeiro encontrar empreendedores como você. Forme pequenos grupos de 5 ou 10 pessoas que estejam estudando boas práticas e atentos às informações que outras regiões produzem. Encontrem-se com frequência e organizem um meetup informal, caso sua cidade ainda não tenha algum. Repetindo esse ciclo, em poucos meses é possível realizar um meetup em qualquer cidade brasileira envolvendo de 50 a 200 empreendedores.

Após isso, crie um pequeno grupo e tente viajar com ele para algum evento em um grande centro. Seja uma vez por ano em um grande evento de startups ou em várias edições de desafios ou competições, participe e conheça pessoas de outras regiões. Aumente seu networking e traga essas pessoas para sua cidade, aumentando o intercâmbio de informações entre empreendedores distantes.

Uma vez que você já tenha filtrado os que persistem, crie um grupo mais comprometido que tenta criar produtos em conjunto. Ciclos de imersão ao longo de um fim de semana podem ajudar a gerar novos produtos, fazer protótipos de ideias e aplicar todas as técnicas que as equipes leem na teoria. A mistura de equipes quase sempre gera times mais funcionais que os originais, aumentando as chances dessa atividade extrapolar sua região e ser propagada em outros lugares.

É importante lembrar que muitas cidades possuem empreendedores digitais ou de tecnologia, mas poucas pessoas estão em uma startup de verdade – ou seja, procurando um modelo de negócios escalável e repetível. Aprender as técnicas certas e praticá-las em conjunto pode fazer muita diferença na evolução empreendedora da sua região – garanta que você seja parte de um processo contínuo e que crie referências de sucesso para incentivar cada vez mais empreendedores iniciantes.

É importante também dizer que você não deve esperar um meetup acontecer na sua cidade. Encontre os empreendedores influentes na sua região e convide-os para organizar um meetup com você. Tente conseguir apoio de entidades e incubadoras locais, e assim o evento chegará ao conhecimento de mais empreendedores. Meetups de startups não precisam de dinheiro nem que se cobre ingresso – eles devem ser uma ação auto-organizada pela comunidade para contribuir para o amadurecimento do cenário local.

Assim que você criar um grupo comprometido e a coisa começar a esquentar, chame a UP Brasil para realizar um Startup Weekend – o evento é uma ótima ferramenta para trazer mais e mais pessoas para o movimento da sua cidade.

 

Tony Celestino